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sábado, 17 de outubro de 2009

CANÇÃO DA PLENITUDE



Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força -- que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés -- mesmo se fogem -- retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.


Poema de Lya Luft do livro "O Lado Fatal" - 1991 - Ed Siciliano - SP - Brasil

Um comentário:

  1. Lindo, lindo. É só com o passar do tempo que aprendemos ser menos afoitos. E tudo que passamos ao outro é mais calmo e mais seguro.
    Carol, quero aproveitar e te dizer que tuas jóias, Gustavo e Francisco são preciosos. E o Beethoven é muito fofo sim.
    Beijos

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